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"Eu sou Ciro, aquele que conquistou para os persas este império; não me invejes, portanto, este pouco de terra que cobre meu corpo."
Autor: Ciro, o Grande
Buscar na Web "Ciro, o Grande"
Quando: 590 a.C.
Trecho do epitáfio do túmulo de Ciro, o Grande, rei da pérsia que expandiu incrivelmente as fronteiras do império.
Seu sepulcro foi visitado por Alexandre o Grande, e esta inscrição lhe impressionou profundamente. Não importa quão "grande" você seja, o destino final é sempre o mesmo!
O epitáfio completo é: "Oh, homem, quem quer que sejas, e de onde quer que tenhas vindo, pois eu sei que virás, eu sou Ciro, aquele que conquistou para os persas este império; não me invejes, portanto, este pouco de terra que cobre meu corpo."
Abaixo segue foto do túmulo:

Categoria: Citação
Escrito por Plínio às 03h41
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A queda do império Alexandrino
A parte mais triste na história de Alexandre o Grande é o que acontece com seu império após sua morte.
A rebelião de Meleagro foi ferozmente reprimida por Perdiccas. Meleagro foi executado em público e, aproveitando a ocasião, Perdiccas usou o fato para fortalecer-se no comando. Como ele advogava a sucessão de Alexandre para o filho de Roxane, Perdiccas agiu rápido: providenciou a morte da segunda esposa do rei morto, chamada Statira, para evitar problemas.
Entretanto, sua figura não era tão carismática como a de seu antecessor, e sua autoridade estava de fato corroída por anos seguidos de animosidade acumulada e silenciosa contra os desmandos de Alexandre. Em pouco tempo, chegou a notícia que todas as cidades gregas, instigadas por Atenas, estavam se desligando do império macedônico.
O responsável pela área, o general Antípatro, foi expulso da região, e morreu poucos anos depois. A rebelião foi duramente esmagada com a chegada do general Cratero, que comandava uma potente marinha e um exército de veteranos. A chamada Democracia Ateniense teve sua morte oficial decretada neste momento, e desde então passaria a ser história. Todas as cidades gregas perderam sua autonomia governamental e passariam a ser administradas como colônias macedônicas.
Ao mesmo tempo, outro sinal de enfraquecimento do império surgia no oriente. Uma rebelião comandada por Chadragupta Maurya começava a repelir as forças greco-persas, e a região do Punjab gradualmente voltava a ser independente.
Finalmente, em 322 a.C., eclodiu a guerra civil entre os generais macedônicos. Cratero, Perdiccas, Cassandro (filho de Antípatro), Nearchus, Ptolomeu e até mesmo a mãe de Alexandre, Olímpia, se engajaram em sangrentas batalhas. Destes, somente Ptolomeu, que teve o bom senso de refugiar-se no Egito e construir seu reinado ali, protegido por defesas naturais como o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo, teve maior sucesso. Cratero morreu em batalha contra as forças de Perdiccas, Perdiccas foi assassinado por seus próprios homens durante invasão no Egito, e Nearchus foi derrotado por Ptolomeu em uma tentativa de invasão.
Olímpia opunha-se ferozmente à proposição de ter o mentalmente incapaz Arrideus como legítimo sucessor de seu filho. Após conseguir capturá-lo em uma batalha, providenciou sua execução.
Coube a Cassandro, filho de Antípatro, derrotar Olímpia em batalha. Aliás, ele merece um comentário especial, pois pessoalmente se encarregou de varrer da face da terra toda pessoa que tivesse qualquer traço de parentesco com Alexandre o Grande. É impossível ler sobre os acontecimentos sem se chocar . O rancor de Cassandro, comentado em post anterior, eclodiu com grande energia: ele providenciou a execução de Olímpia, Roxane e seu filho, o pequeno Alexandre “Junior”.
Cassandro obteve certo sucesso ao se tornar governante das cidades gregas.
Até hoje não se sabe em detalhes do fim de Barsine (a princesa persa que foi concubina de Alexandre, mencionada no post anterior) e seu filho Héracles. Mas não crie esperanças, caro leitor: ambos foram executados após o fracasso de Nearchus em tomar o império. A dúvida é quando e como exatamente isto aconteceu...
O resultado final de toda esta sangrenta confusão foi um império esfacelado: Cassandro na Grécia, Ptolomeu no Egito, e uma miríade de reinos na Ásia... Dentre todos estes reinos, somente o de Ptolomeu seria sólido, caracterizado por uma longa dinastia que duraria séculos. O último dos ptolomeus foi a famosa rainha Cleópatra, derrotada pelo romano Otávio no século I d.C., mais de trezentos anos depois.
Este foi o fim do sonho de Alexandre o Grande!

Escrito por Plínio às 01h35
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Retomando...
Olá caros leitores,
Três anos se passaram desde o primeiro post sobre Alexandre. Em várias ocasiões, cheguei a duvidar se conseguiria terminar, devido à quantidade imensa de material para se trabalhar.
O curioso é que somente uma pequena fração da vida do homem foi contada aqui. Acontecimentos importantes, como a vitória sobre o Nó Górdio, a visita ao túmulo de Ciro, o encontro com Bucéfalo, a tutela de Aristóteles, a batalha de Queronéia, o sangrento sítio de Tiro, nem sequer foram comentados aqui.
Algum dia reunirei todo o material que puder e montarei um site sobre Alexandre. No presente momento, entretanto, me limitarei a falar sobre:
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o destino final de seu império;
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o impacto de suas invasões na história de toda a humanidade;
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a influência deste personagem incomum em minha vida, e o porquê de meu interesse por ele;
Aceitam acompanhar-me nesta última empreitada sobre Alexandre? Permita-me avisá-los, caros leitores, que as palavras que se seguirão os levarão ao mundo obscuro, complexo, intrincado, hostil e chocante das ambições humanas nos grandes impérios antigos. E que, paradoxalmente, é um mundo muito interessante, rico e sedutor também.

Escrito por Plínio às 00h21
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"A grandeza não consiste em receber honras, mas merecê-las."
Autor: Aristóteles
Buscar na Web "Aristóteles"
Quando: Entre 384 aC e 322 aC

Categoria: Citação
Escrito por Plínio às 00h32
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Que os jogos tenham início!
Um pouco antes de morrer, Alexandre disse que antevia grandes jogos a serem realizados em sua honra.
Estes jogos não tardaram muito a começar...
Logo no dia seguinte à morte de Alexandre (que ocorreu no dia 11 de Junho de 323 aC), houve uma reunião entre os generais mais influentes do império criado por ele.
A questão era: o que fazer com o império?
Perdiccas, o comandante da cavalaria, que recebeu de Alexandre o anel que lhe dava poder de administrar o império, disse que o melhor era esperar que a princesa Rosane, então grávida do rei, desse à luz. O bebê, caso fosse homem, seria o legítimo herdeiro. Nesse meio tempo, um irmão de Alexandre, chamado Arrideus, poderia ser o governante do império.

Provável busto de Arrideus
Entretanto, Arrideus tinha problemas mentais e era epiléptico, e isto fazia dele incapaz de reinar. Perdiccas candidatou-se como regente do império, “dando suporte” a Arrideus, enquanto não se definia a situação da grávida Rosane.
A “boa vontade” de Perdiccas em assumir a regência foi logo questionada por Nearchus, o comandante da marinha. Este lembrou que Alexandre já tinha um filho homem: o garoto Héracles, então com uns quatro anos de idade, filho da concubina Barsine (membro da nobreza persa capturada pelos macedônios após a batalha de Issus). Ele, portanto, seria o herdeiro mais indicado.
Todos imediatamente recusaram a proposta, pois a “excelente memória” de Nearchus ao lembrar-se de Héracles tinha um motivo: ele era casado com uma filha de Barsine. Portanto, sendo cunhado do rei, tornar-se-ia muito influente.
O próximo a falar foi Ptolomeu, um dos amigos mais próximos de Alexandre, presente em sua vida desde a mocidade. Ptolomeu foi talvez o mais honrado de todos os generais macedônios e, com certeza, o mais esperto. Ele discordou da idéia de ter como herdeiro tanto o filho de Rosane como o filho de Barsine. Ambos eram mestiços, não eram “puro sangue” macedônio. Sua proposta era de que as decisões mais importantes do futuro governo fossem tomadas por aqueles presentes, como um tipo de comitê. Esta idéia recebeu razoável apoio dos demais.

Ptolomeu
Entretanto, o comandante da infantaria, Meleagro, recusou veementemente a idéia de Ptolomeu. Embora concordasse que os filhos de Rosane e Barsine eram mestiços, ele discordava da idéia do comitê. Ele defendeu a idéia de Arrideus como herdeiro único de todo o império. Arrideus não tinha sangue persa, e por isso era a opção preferida pelos soldados da falange macedônia, que odiaram os costumes orientais introduzidos à força por Alexandre.
A oposição ferrenha de Meleagro impossibilitou o consenso, e logo Perdiccas exigiu uma mudança de posição de sua parte. Uma longa história de rivalidade e ressentimentos entre a cavalaria macedônia (chefiada por Perdiccas) e a infantaria (chefiada por Meleagro) encontrou aí seu ponto crítico. A falange se revoltou e uma rebelião eclodiu.

A falange macedônia em ação!!
Que os jogos tenham início!!
Escrito por Plínio às 23h59
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A morte de Alexandre
Quem é vivo sempre aparece, não é verdade? Então, aqui estamos nós, prestes a nos despedir de um dos caras mais vitoriosos, nojentos, egocêntricos, ambiciosos, geniais e fantásticos da história humana.
A despeito dos avisos de alguns adivinhos, que lhe diziam que não seria bom instalar-se na Babilônia, Alexandre seguiu com suas forças para lá e ali estabeleceu seu governo, nomeando a cidade capital de seu novo império.

Babilônia
Foi na Babilônia que ele recebeu Cassandro, filho do general Antípatro, que iria defender o pai das acusações estimuladas por Olímpia, mãe de Alexandre.
O encontro com o rei dificilmente poderia ter iniciado de pior maneira para Cassandro. Ele não conseguiu conter as risadas quando viu um nobre persa prostrar-se diante do rei, e Alexandre, ofendido, explodiu de raiva. Agarrou o rapaz pelos cabelos e arremessou sua cabeça contra a parede. Mais tarde, durante a audiência de defesa, Alexandre advertiu que puniria severamente ele e seu pai se houvesse algum fundamento nas acusações. A violência desse encontro deixou marcas profundas na mente de Cassandro. De fato, durante a guerra civil que se seguiu após a morte do rei, Cassandro se encarregou de liquidar a esposa de Alexandre (a princesa Rosane) e seu herdeiro, Alexandre IV, apenas uma criança de 13 anos. Tempos depois, já governante da Macedônia, tremia incontrolavelmente só de ver a efígie de Alexandre, tamanho o ódio que ainda sentia.
Voltemos à história. Era o ano de 323 aC. No dia 29 de maio, o rei organizou um banquete em homenagem a seu almirante Nearchus. A turma, seguindo o costume, “enfiou o pé na jaca” de novo, e nosso herói se embriagou bastante. Depois do jantar, ele quis deitar-se: algo fora do usual, e que pode sugerir que já não vinha se sentindo muito bem. Entretanto, seu amigo da Tessália, Medius, estava dando uma festa “after hours”, e o persuadiu a comparecer. Depois, Alexandre ainda teve disposição para ir a uma celebração em memória da morte do semideus Héracles, onde bebeu mais.
Em determinado momento da celebração, foi-lhe dado um copo de vinho não diluído, que ele bebeu todo de uma só vez. Imediatamente após o ato, soltou um grito, como se tivesse sido atingido por um golpe violento. Nesse momento, foi carregado de volta aos seus aposentos, e posto na cama.
No dia seguinte, teve febre alta. Apesar disso, levantou-se, tomou seu banho, cochilou um pouco, e depois jantou com seu amigo Medius, e bebeu mais vinho. Nesta noite, a febre foi tão intensa que ele dormiu na casa de banho por causa da sensação de frio que castigava seu corpo. Na manhã seguinte, voltou ao seu quarto, e passou o dia jogando dados. Na noite do dia 01 de junho voltou à casa de banho e lá, durante a manhã do dia 02, discutiu seus planos de invasão da Arábia junto com Nearchus e outros oficiais experientes. Ele estava agora com febre ininterrupta e crescente. Na noite do dia 03 de Junho, ficou claro que ele estava criticamente doente. Ainda assim, ordenou que fosse carregado na manhã seguinte para o sacrifício diário, e fez uma preleção a seus oficiais. No dia 05 de junho, ele foi forçado a reconhecer a gravidade de seu estado, e ordenou a todos os oficiais mais ranqueados que não ficassem distantes de seus aposentos.
Na noite do dia 06, quase sem poder falar, passou seu anel a Perdiccas, como marechal-chefe, de modo que a administração diária pudesse continuar normalmente. Logo o rumor da morte iminente de Alexandre espalhou-se entre os soldados. Suas tropas se amontoaram em volta do palácio, ameaçando abrir os portões à força se não lhes fosse permitido ver seu líder. Conseguindo o que queriam, eles formaram uma fila em frente aos aposentos do rei, passando um a um ao lado de seu leito, prestando-lhe homenagens. Incapaz de levantar-se ou falar, ele apenas balançava a cabeça e assentia com os olhos, em sinal de aprovação e gratidão.

Na noite do dia 10 de Junho, os amigos mais próximos do rei juntaram-se em torno dele, e lhe perguntaram – afinal, esta era uma questão de vital importância – a quem ele entregaria seu reino. Alexandre sussurrou, quase inaudível: “Ao mais forte”.
Suas últimas palavras foram: “Antevejo grandes jogos em minha homenagem, em meu funeral”. E ele estava terrivelmente certo, como veremos...
Escrito por Plínio às 17h40
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O isolamento de Alexandre (continuação)
Em 324 aC, ocorreu um grave desentendimento entre Alexandre e o general que ele deixou como responsável pela Grécia e Macedônia: Antípatro. Desde que foi nomeado por Alexandre, o veterano comandante começou a acumular problemas cada vez maiores com Olímpia, mãe de Alexandre. Esta escrevia cartas furiosas ao filho, exigindo que este tomasse providências. Por fim, neste ano, ele se deixou convencer pela mãe, e começou realmente a suspeitar da lealdade de Antípatro, exigindo sua presença na Pérsia. Antípatro, ciente dos boatos acerca da sanidade mental de seu líder, temeroso do que podia suceder-lhe, enviou seu filho Cassandro em seu lugar, para tentar negociar uma solução diplomática com o rei. Mas sua recusa em comparecer só serviu para cristalizar de vez as suspeitas de Alexandre. Ele já deixava claro para todos que pretendia substituir seu comandado.
Aristóteles, Antípatro e Cassandro serão personagens importantes dos acontecimentos a serem relatados em meu próximo post!
E, finalmente, em 324 aC, veio o grande golpe... O melhor amigo, braço direito (e provável amante) do rei, Hephaestion, caiu doente, após uma noite de intensa bebedeira, e morreu sete dias depois.
A reação de Alexandre foi forte e extravagante. Chorou por um dia e uma noite sobre o cadáver, sem que ninguém pudesse confortá-lo; decretou luto geral por todo o Oriente; baniu flautas e outros instrumentos musicais do acampamento militar; cortou os próprios cabelos, assim como Aquiles fez em memória de Patroclus na Ilíada; ordenou a crucificação (!) do infeliz médico responsável por Hephaestion (segundo nos conta o historiador Curtius); jejuou por três dias seguidos; e, finalmente, ordenou que se apagasse o fogo sagrado de Zoroastro em sinal de luto. Foi um engano, pois o fogo sagrado só poderia ser apagado em caso de morte de um rei .
Mas, eis que este engano acabou se revelando profético... pouco tempo depois, como veremos nos próximos posts, Alexandre veio a falecer.

A religião de Zoroastro existe até hoje - e o fogo sagrado também
Após providenciar o embalsamento do corpo e patrocinar um funeral caríssimo (com direito a uma pira do tamanho de um prédio de cinco andares), Alexandre chegou ao extremo de solicitar ao Oráculo de Zeus Ammon, em Siwa, a permissão para decretar a adoração de Hephaestion como deus. O Oráculo, polidamente, respondeu que “Não”...
Para sublimar a frustração decorrente da perda do melhor amigo, Alexandre liderou uma campanha contra os cosseanos, uma tribo das montanhas que estava atacando as estradas ao sudoeste de Ecbátana. Massacrou os inimigos em apenas cinco semanas, ordenando a morte de toda a população masculina, e denominou a “obra” como uma “uma oferenda à sombra de Hephaestion”.

Ruínas de Ecbátana - cidade do Império Persa, situada no que hoje é o Irã
E o Rei não se cansava de enviar sinais de seu estado mental. Talvez o mais chocante para o mundo grego foi a imposição de sua deificação: Alexandre agora teria de ser adorado como um deus, seguindo o modelo oriental de Monarquia. Era a primeira vez que a figura de um governante divino, um Rei-deus, adentrava o mundo grego, que vivia em regimes totalmente diferentes (oligárquicos ou democráticos). Embora, no futuro, o costume acabasse por se tornar popular no mundo ocidental (como veio a ocorrer no Império Romano), na época foi considerado uma afronta aos mais conservadores líderes políticos.
Mas nosso herói controlava com mão-de-ferro suas posses na Grécia, e mesmo os maiores opositores do Rei acabaram por aceitar a deificação de Alexandre. “Tudo bem”, dizia Demóstenes, o grande orador e contestador do macedônio, “façam-no filho de Zeus – e de Poseidon também, se isso lhe agrada”.

Demóstenes
Escrito por Plínio às 17h41
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O isolamento de Alexandre
Alexandre cada dia isolava-se mais... Não apenas ordenava o afastamento, a prisão, e a morte de subordinados dos quais desconfiava, mas também ia progressivamente ficando sem amigos e aliados. Em torno dele restaram praticamente só os bajuladores, aos quais dava mais atenção do que devia.
A perda de amigos, subordinados e aliados começou de maneira discreta, ainda no meio de sua campanha contra os persas, e foi evoluindo em rapidez e quantidade até culminar no expurgo de Campânia. Abaixo segue um resumo...
Em 330 aC, Alexandre mandou eliminar seu lugar-tenente Philotas, por alta traição. Seu pai era o valoroso e experiente general Parmenio. Praticamente foi obrigatório para Alexandre ordenar a morte dele também, pois Parmenio tinha voz de comando sobre muitos soldados. Parmenio foi degolado na calada da noite, e depois alegou-se suposta participação na “conspiração” do filho.
Depois, em 328 aC, em um acesso de raiva durante acalorada discussão, com a cabeça cheia de vinho, Alexandre sacou uma lança de um guarda e matou seu comandado e amigo Clito. Clito foi o homem que salvou sua vida na primeira batalha que travou contra os persas (a Batalha de Granicus). O motivo? Ele disse que Alexandre estava esquecendo suas origens macedônias ao adotar costumes persas. Disse ainda que ele devia todas suas conquistas ao seu pai Filipe, pois foi Filipe quem teria montado toda a estrutura do exército macedônio a partir do zero. Comparações com o pai sempre tiveram impacto sobre o ego de nosso herói...
Depois da besteira, Alexandre arrependeu-se amargamente. Chorou muito a morte do amigo e quase matou a si próprio de inanição por jejum.
Em 327 aC, Alexandre ordenou a prisão do filósofo e historiador grego Calístenes. Calístenes era o historiógrafo chefe da campanha de Alexandre, ocupado de escrever sobre tudo o que acontecia. Ele foi acusado de participar de uma conspiração para matar Alexandre (a obscura “conspiração dos pajens”), mas quase todos os historiadores atuais concordam que o não-revelado motivo de sua prisão foi o protesto público do filósofo contra a adoção da prática de proskynesis (prostração). A proskynesis era comum entre os persas, usada para demonstrar devoção total ao Rei, mas macedônios e gregos a viam como uma exibição da subserviência repulsiva dos orientais. Alexandre manteve o costume e procurou impô-lo aos gregos e macedônios, tentando unir culturalmente seu império.
Proskynesis: Rei Jehu de Israel prostrando-se para Shalmaneser
Calístenes era frontalmente contra a prática, e acabou preso e morto. Para complicar mais, ele era sobrinho de Aristóteles, o famoso filósofo grego e preceptor de Alexandre em sua juventude. E depois, como se fosse pouco, Alexandre ainda enviou uma carta em tom ameaçador a Aristóteles, dizendo que finalmente “havia se livrado do sofista” (referindo-se a Calístenes), e que, logo que voltasse à Grécia, gostaria de ter uma conversa séria com ele (dando a entender que acusava Aristóteles de participação na suposta conspiração).

Busto de Aristóteles
Em 326 aC, ele perdeu um de seus mais amados amigos: o cavalo Bucéfalo! O famoso animal morreu na Batalha do Rio Hydaspes. Em homenagem a ele, o rei fundou a cidade de Bucéfala próximo ao local da batalha.
De 325 aC a 324aC, ocorreu o expurgo de Carmania, conforme relatei no post anterior. Arriano, em sua biografia de Alexandre, chama-o a partir deste ponto de oxyteros (cruel, impiedoso), indicando que ficou nítido para todos que ele já era outra pessoa.
Escrito por Plínio às 18h27
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O expurgo de Carmania
Olá pessoal!
Chegou o momento triste de, finalmente, contarmos os últimos momentos da vida de Alexandre o Grande.

clique na imagem para ver um mapa bem completo do império macedônio!
Após sair do deserto de Gedrosia, Alexandre continuou sua viagem com destino à Babilônia. Antes, decidiu se deter em algumas cidades na província da Carmania . Era o ano de 325 aC. Ali ele organizou uma parada para reencontrar-se com seus comandados Craterus e Nearchus. Vários sátrapas de seu império foram encontrar-se com ele também, seguindo ordens suas.
O primeiro sátrapa que veio receber o rei foi Astaspes. Alexandre o encontrou com aparente satisfação, mas logo o cenário mudaria. Ele havia recebido várias informações desabonadoras sobre o sátrapa, e suspeitava de conspiração. Ele rapidamente ordenou a execução de Astaspes. Começava aí uma sucessão de prisões e execuções que durou mais ou menos um ano.
Em Carmania, Alexandre ordenou a presença de vários sátrapas, tanto persas como macedônios, e muitos eram presos e mortos assim que chegavam. Os motivos públicos alegados eram acusações de tirania e desrespeito à religião dos territórios dominados. Mas, provavelmente, era paranóia pessoal do Alexandre mesmo, alimentada pelo clima de intensa intriga da corte imperial persa. Este episódio todo ficou conhecido entre os historiadores como o expurgo de Carmania.
Por fim, em 324 aC, Alexandre ordenou a execução do sátrapa responsável pela província que englobava Gedrosia. O homem, chamado Abulites, e seu filho foram ambos executados. O motivo era sua suposta falha em não socorrer o exército quando este se encontrava perdido no deserto. Isso, acusava, mesmo após ter recebido vários pedidos de ajuda em missivas entregues por cavaleiros de Alexandre. Eu vejo uma tremenda sacanagem nesta acusação , pois acho que era praticamente impossível juntar e transportar água e víveres para 60 mil pessoas em tão poucos dias. Provavelmente, a intenção de Alexandre era jogar publicamente a responsabilidade do desastre de Gedrosia em outra pessoa. E, aproveitando a situação, livrar-se de um subordinado em quem ele não confiava.
Aliás, ter confiança em seus subordinados era coisa cada vez mais rara. Alexandre estava cada dia mais isolado, desconfiado, mergulhando progressivamente na paranóia. Ele era outro homem agora, bem diferente do rapaz jovial, confiante, caristmático, que liderou o exército macedônio na travessia do Hellesponto em 334 aC. Antes um abstêmio, que criticava publicamente o amor do pai Filipe pela bebida, ele agora tomava altos porres!
 
O “jovem” Alexandre (perto dos 20 anos) e o “velho” Alexandre (perto dos 30)
Alexandre abusava das orgias. Chegou a organizar uma bem longa, que durou sete dias (!!!), na qual ele imitou o deus Dionísio, desfilando em carro aberto por entre “adoradores”, uma festa regada com muito vinho. Também estava mais gordo: a diferença de peso pode ser percebida mesmo hoje em dia, quando comparamos os bustos que foram esculpidos nestas épocas diferentes de sua vida. O corpo estava coberto por mais de 25 cicatrizes, resultado de sua ousadia nos campos de batalha.
Aguardem o próximo post e descubram o que aconteceu com ele!
Escrito por Plínio às 18h29
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O pior inimigo (da série Alexandre o Grande)
O historiador grego e senador do império romano Arriano (87dC – após 145 dC) descreve bem o inferno pelo qual passou o exército de Alexandre. Abaixo, um breve resumo de seu texto.
Logo nos primeiros dias, a falta de água começou a se fazer sentir de maneira implacável. Os animais foram os primeiros a tombar, o que fez com que muitos pertences fossem largados no deserto, por falta de transporte. Em alguns momentos, os soldados se deparavam com montanhas de areia tão fracamente compactada, que eles afundavam no chão como se estivessem na água.
As marchas eram fonte de ansiedade constante, sob o sol furioso. Nunca se sabia quanto tempo elas iriam durar, pois nunca se sabia quando se encontraria nova fonte de água potável. A sede crescia e, quando se encontrava água, as pessoas se lançavam nela em desespero, bebendo o máximo possível. Daí sobrevinha outro mal, seguindo a desidratação: a super-hidratação, decorrente do consumo excessivo de água após um longo período de falta. Homens e mulheres caíam, corpos em choque, por causa da super-hidratação!
Logo, os animais de carga começaram a ser usados como alimento. Isto era proibido, mas as pessoas não se continham, movidas pela fome e sede de vários dias. Começou a faltar transporte para os doentes e exaustos, e eles começaram a ser largados no caminho. Não era sequer cogitado parar a marcha para se dar assistência, pois a demora de alguns dias em se cruzar o deserto poderia significar a morte para todos.
Segundo Arriano, neste deserto ocorreu o famoso episódio da recusa de água: ao receber um elmo com água, Alexandre olhou para os lados, e de maneira teatral, despejou todo o conteúdo na areia do deserto. Não havia suficiente para todo mundo. "Se todos não podem beber comigo, eu tampouco beberei" disse, demonstrando que sofreria com seus comandados. Entretanto, historiadores modernos tendem a concordar que este episódio aconteceu, na verdade, no deserto da Bactria (outro que foi atravessado por Alexandre, antes de adentrar a Índia, quando perseguia Bessus). E o incidente teria sido ligeiramente diferente: Alexandre teria somente recusado um cantil com água, devolvendo-o a um soldado e ordenando-lhe que dividisse a água com seus filhos.

"Quem foi que botou água no meu elmo"???
Ocorreu um grande desastre, talvez o pior de todos: o exército cometeu o erro crasso de bivacar (acampar por um dia) próximo a um pequeno córrego. Fizeram isso pela água que estava garantida, ainda que em pequena quantidade. Durante a madrugada, uma pesada chuva de monção caiu, em local distante, não visível pelos soldados. Até aí OK, mas o problema foi que, o que era um córrego, ao ser alimentado pela chuva torrencial, se transformou em uma tremenda enxurrada que imediatamente se abateu sobre o acampamento. Não houve tempo para fazer muita coisa: mulheres e crianças, animais, até mesmo a tenda real, com tudo que estava dentro, foram arrastados pelas águas e se perderam de vista. Basicamente, apenas as tropas sofregamente conseguiram sobreviver, se arrastando pelas margens, com pouco mais além de suas armas (ou nem isso).

Aqui pode-se ver, com mais detalhe, Gedrosia e a cidade de Pura.
Após muito sofrimento e tentativas, o exército terminou de contornar as montanhas, e reencontrou o mar, e consequentemente correntes de água potável. Mais tarde, Alexandre chegou na cidade de Pura, e assim acabaram seus sessenta dias de marcha pelo deserto. Os números do desastre foram significativos: das 50-60 mil pessoas que iniciaram a travessia, somente 15 mil a concluíram.
Nunca o exército de Alexandre teve tantas mortes como nesta travessia. Em nenhuma batalha tanto dano fora causado, e tantas baixas registradas. E tudo isso somente para satisfazer um pothos, um desejo de provar ser o melhor. Em sua ânsia de satisfazer seu ego, Alexandre sacrificou a vida de mais de 35 mil pessoas.
Engana-se quem pensa que Alexandre nunca foi derrotado. No deserto de Gedrosia, ele teve sua grande derrota. E não pensem que o inimigo que o venceu foi o deserto... Alexandre, conquistador do mundo, filho de Zeus e Ammon, foi derrotado por ninguém mais, ninguém menos, do que ele mesmo...
Escrito por Plínio às 18h36
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O inferno de Gedrosia (da série Alexandre o Grande)
Olá pessoal! Bem vindos a este humilde blog, mais uma vez atualizado por este modesto camarada...
Vou continuar contando a história de Alexandre para vocês. Aliás, HOJE acaba de estrear a superprodução de Oliver Stone. Pretendo assistir logo, apesar das duras críticas. O filme foi acusado de diversas imprecisões e má escolha dos atores (realmente: como é que puseram a Angelina Jolie como mãe de Collin Farrel??).
Bem, a história havia parado na chegada do exército de Alexandre a Oceanos. Após as comemorações do feito (que envolveram a construção de estátuas e a oferta de sacrifícios animais a deuses gregos), começou-se a decidir como seria feito o retorno para casa.
Alexandre decidiu por retornar à Grécia e Macedônia com uma parada na Babilônia. Lá, seria estabelecida a capital de seu novo império, devido à sua localização central. Ao planejar a ida à Babilônia, de posse dos relatos geográficos e históricos de Heródoto, percebeu que à sua frente estava um grande desafio, ao qual se lançaram os grandes líderes guerreiros de sua época: o Deserto de Gedrosia. Havia outras rotas possíveis, mas a de Gedrosia era a mais difícil e perigosa.

O Deserto de Gedrosia fica localizado na parte sul do território que liga o norte da península arábica ao noroeste da Índia. É um terreno extremamente hostil, tremendamente escasso em água. A Rainha Semiramis se deslocou com seu exército pelo deserto, e terminou a travessia com somente vinte homens. Ciro, o Grande, um dos maiores reis persas, ousou desafiar o deserto, e saiu de lá com sete sobreviventes!
Essas histórias antigas, ao invés de amedontrar, aguçaram a avidez de Alexandre... Fiel a seu lema "sempre lutar para ser o melhor!", ele desenvolveu um pothos por atravessar Gedrosia, e vencer aonde Ciro e Semiramis foram derrotados.
Alexandre montou uma estratégia de travessia interessante: estabeleceu que a marinha, comandada por Nearchus, faria a viagem costeando o deserto, com o grosso dos mantimentos, e estaria periodicamente se encontrando com o pessoal em terra em lugares específicos, para abastecê-los com comida e água potável. Desse modo, o pessoal em terra estaria livre de cargas muito pesadas para seguir com sua marcha. Deve-se lembrar que estas pessoas que marchariam não eram apenas soldados; eram também mercadores, criadores de animais, as mulheres e as crianças dos soldados, gente não acostumada às dificuldades de uma marcha e da vida militar.
O início da viagem transcorreu conforme planejado. Alexandre partiu por terra com algo entre 50mil e 60 mil pessoas. Nearchus, por mar, contava com algo entre 17 mil e 20 mil pessoas. Muita gente, ao ler os textos sobre o desastre de Gedrosia, tem a impressão de que se tratou de uma ação inconsequente e impensada de Alexandre. Desnecessária, sim, pois Alexandre poderia ter seguido por outras rotas, mas impensada, creio que não. A marinha de Nearchus conseguiu se encontrar com o pessoal em terra e deixava os mantimentos necessários. Isso dava ao pessoal em terra a tranquilidade necessária para marchar em ritmo pausado e procurar fontes naturais de água potável ou comida.

No verão, deve ser uma delícia!
Há um acontecimento interessante a narrar: em determinado momento, as tropas se encontraram com uma tribo primitiva. Era uma tribo que subsistia através da pesca, e seu alimento básico (quase único) era peixe. Os estudiosos gregos os chamaram de Ichthyophagi ("comedores de peixe"). Os gregos relatam que eles serviam peixes como alimento inclusive para seus rebanhos. Estes animais, quando ingeridos nas refeições, chegavam a ter um sabor que lembrava o de peixe! Várias tribos primitivas com este nome (um tanto quanto pejorativo, diga-se de passagem) foram reportadas por diversos historiadores romanos e gregos em locais diversos. Além de Nearchus, temos que Ptolomeu, Pausanias, e até meu xará Plinio, o Velho, mencionaram tribos Ichthyophagi vivendo nas costas do Egito, da Península Arábica, da Etiópia... Viajantes medievais fizeram relatos semelhantes. O explorador Richard Burton, no sécuklo XIX, confirmou a existência de um povo destes... A figura ao lado é de um mapa catalão do século XIV, que descreve a costa da China e os Ichthyophagi que lá habitavam...
Voltando a Gedrosia: no decorrer da viagem, um terrível erro de reconhecimento do terreno se fez visível: havia uma cadeia de montanhas margeando a costa, e as tropas tiveram de desviar-se da rota, rumando para o interior do deserto, perdendo contato com a marinha. E este contato, uma vez perdido, não pôde mais ser recuperado até o final da travessia.
Subitamente, o exército de Alexandre se viu com poucos mantimentos, sem água, com dias de sol escaldante e noites gélidas. As chuvas, quando ocorriam, eram as fortes chuvas de monção que, quando caem em um deserto, fazem um estrago terrível. Ao cair com força na areia, sem vegetação que possa reter suas águas, as chuvas se convertiam em torrentes fortíssimas de lama. E, para complicar mais ainda, seus guias foram forçados a admitir, depois de alguns dias, que estavam perdidos, pois não conseguiam se orientar tão distantes do litoral, naquele "mar de dunas" que mudava significativamente ao sabor dos ventos.

O mar de dunas!
E agora? Que fazer? Fácil... espere alguns dias e leia o próximo post!
Abraços,
Escrito por Plínio às 18h24
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Relato de viagem (continuação do post anterior)

Reconhecem o cara da foto??
Em 1998, estive em Istanbul, na Turquia, fazendo turismo (naquela época era bem mais fácil viajar para o exterior: US$ 1,00 = R$ 1,25...). Visitei o famoso sarcófago no Museu Arqueológico, e tirei algumas fotos. O sarcófago está em excelente estado, muito bem conservado. Infelizmente, as "armas" portadas pelas imagens em relevo (provavelmente miniaturas de lanças e espadas em metal) devem ter sido saqueadas por ladrões de túmulos (digo "devem" porque agora a memória me falha...).

Com a camiseta do Brasil, na Turquia, observando arte grega (êta, globalização!)
Alguns acham que se pode distinguir nas imagens em relevo, não somente Alexandre montado em seu cavalo Bucéfalo, mas também seus oficiais Hephaestion e Parmenio. Alexandre é representado sempre usando um elmo de cabeça de leão, uma representação artística que procura mostrá-lo como um descendente do semideus Héracles.

Cena de batalha contra os persas: Alexandre está à esquerda

Alexandre com o elmo de cabeça de leão, à maneira de Héracles

Alguns crêem que esta imagem é de Hephaestion

Lado oposto do sarcófago: Abdalonymus em cena de caça (está à esquerda)

Naquela época não havia Greenpeace...
Havia uma outra sala no Museu Arqueológico, totalmente dedicada ao Período Helenístico e Império Macedônio. Lá me deparei com uma estátua de Alexandre o Grande. Quem vê a imponência da estátua chega a esquecer que Alexandre, na verdade, era meio nanico...

Da esq p/ dir: quadro explicativo, Alexandre o Grande, e Plínio o Grande...
E, concluindo, para fechar o post...

*** VISITE A TURQUIA! ***
Escrito por Plínio às 23h55
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Outra breve interrupção: O Sarcófago "de Alexandre"
Olá pessoal... espero que a virada de ano tenha sido excelente!
Bem, a história do nosso camarada Alexandre o Grande se aproxima de seu término mas, antes de prosseguir, queria contar uma história bacana para vocês. Lá vai...
Em determinado momento após a Batalha de Issus (333 aC), Alexandre começou a dominar diversas cidades fenícias. Em 332 aC, ele adentrou a grande cidade portuária e comercial de Sidon. Os macedônios foram saudados pela população local como libertadores (eles odiavam Dario III e os desmandos do império persa). Além disso, provavelmente, as classes dominantes de Sidon viam os macedônios como possíveis aliados, capazes de decidir o jogo a seu favor na sua longa rivalidade contra a cidade fenícia de Tiro.

Sidon fica no Líbano
Rapidamente, os sidonianos depuseram o príncipe regente (que provavelmente foi executado) e ofereceram a Alexandre o poder de escolher o sucessor no governo da cidade. Alexandre delegou a seu braço direito Hephaestion a tarefa de selecionar um candidato adequado. A escolha de Hephaestion foi por um membro distante da família real local, que vivia então em condições modestas como jardineiro.
Este homem, Abdalonymus – cujo nome, fenício, significa “servo dos deuses” – diligentemente ascendeu ao trono, uma fantástica mudança de status e condição social! Alexandre provavelmente calculou que uma elevação tão dramática em sua vida deixaria Abdalonymus com um sentimento duradouro de fidelidade e obrigação para com ele.
Pois bem, este modesto senhor acabaria por se tornar uma estrela na arqueologia! Pois ele providenciou para si a construção de um belíssimo sarcófago, representando Alexandre em cenas de batalha contra os persas em um lado, e o próprio Abdalonymus em cenas de caça no outro lado. Este sarcófago foi encontrado em Sidon em 1887, e hoje se encontra em exposição no Museu Arqueológico da cidade de Istanbul, na Turquia. Muita gente se engana, achando que este sarcófago é de Alexandre o Grande, mas na verdade é do rei Abdalonymus.

Sarcófago "de Alexandre" (aqui pode-se ver a cena de caça)
Escrito por Plínio às 21h59
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Uma breve interrupção...
Antes que me esqueça, esta é para desejar a todos aqueles que estejam lendo este humilde blog um FELIZ NATAL e PRÓSPERO ANO NOVO!!
Algumas piadinhas...(clicando na imagem, pode-se consultar o site original e rir com outras piadas!)
Os posts com a história do Império Macedônio continuarão!
Grande abraço a todos,
Escrito por Plínio às 17h51
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"Toda a terra que te pertence" (continuação do post anterior)
Os gregos provavelmente nunca entenderam muito bem as filosofias e religiões da Índia. Nearchus (o comandante responsável pela marinha grega, e também historiógrafo) achava que Buddha era o nome do segundo rei da Índia; Krishna, o oitavo avatar de Vishnu, aparentemente foi interpretado pelos gregos como sendo o semi-deus Héracles.
 
Krishna e Héracles
Há um relato que considero muito legal da passagem de Alexandre pela Índia. Em determinado momento, ele e suas tropas se encontraram com ascetas jainistas (vejam Mahavira e Jainismo, no post sobre Tao Te Ching). Nunca saberemos se este encontro realmente aconteceu e se foi da maneira como está narrada abaixo (já que há muita lenda em torno de Alexandre) mas o diálogo travado foi tão incrível que me sinto na obrigação de reproduzí-lo aqui.
Ao passar com sua comitiva, Alexandre se deparou com um grupo de ascetas jainistas (todos nus) que se preparava para uma discussão filosófica. Com a aproximação das tropas, esses veneráveis homens começaram a bater seus pés no chão e não demonstraram nenhum outro sinal de interesse. Quando Alexandre, através de um intérprete, lhes perguntou a razão de tal estranho comportamento, esta foi a resposta que recebeu: "Rei Alexandre, cada homem pode possuir, de toda a face da Terra, somente este pedaço, que é aonde ele está pisando. Você é tão humano como nós, com a diferença de que está sempre ocupado e voltado para nada que seja bom, viajando tão longe de sua casa, um aborrecimento para si próprio e para os outros. Ah sim! Logo você estará morto, e então será dono de toda a terra necessária e suficiente para lhe enterrar."
Fico imaginando a sensação de indignação que deve ter invadido os corações dos guerreiros macedônios e persas que estavam próximos. Provavelmente, alguns devem ter se oferecido para "cortar as cabeças daqueles insolentes". Entretanto, surpreendentemente, Alexandre aplaudiu o discurso dos ascetas, demonstrando admiração por sua filosofia. Esta reação lembrou a que teve no encontro com o filósofo Diógenes, alguns anos antes, na Grécia.

Diógenes arrumando a casa...
Aliás, gostaria de contar para vocês a história deste famoso encontro... Em Corinto, 335 aC, após confirmar sua posição como líder hegemônico da Liga Helênica, e obter suporte para iniciar sua campanha contra a Pérsia, Alexandre se sentiu curioso por conhecer o famoso Diógenes, o Cínico. Acabou por encontrá-lo nos subúrbios da cidade, ao lado do tubo de argila que lhe servia como casa, e aproximou-se pessoalmente dele, deixando sua comitiva para trás. O filósofo estava lá, tomando sol, nú exceto por uma tira de pano...
Diógenes, com sua meditação perturbada pelo ruído e risos dos numerosos cortesãos que vieram logo atás de Alexandre, abriu os olhos e fitou diretamente o comandante, sem dizer uma única palavra. Talvez pela primeira vez na vida, Alexandre ficou constrangido. Ele cumprimentou Diógenes formalmente, e aguardou. O filósofo permaneceu quieto. Finalmente, tentando de todas as maneiras "quebrar o gelo", Alexandre perguntou se havia algo, qualquer coisa, que ele pudesse fazer por ele.

Diógenes e Alexandre
"Oh, sim", veio a famosa resposta, "saia daí; você está bloqueando o sol". Aquele foi o fim da conversa. Em sua volta para Corinto, os seguidores de Alexandre tentaram fazer do encontro uma piada, ridicularizando Diógenes e chamando-o de "pretensioso". Mas o comandante silenciou a todos com um dito enigmático: "Se eu não fosse Alexandre, eu seria Diógenes".
E a dita resposta dos jainistas acabou sendo profética, mesmo que sem intenção... poucos anos após invadir a Índia, Alexandre veio a falecer, de causas até hoje não explicadas - mas isto é assunto para um próximo post!
Escrito por Plínio às 01h00
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